7 de novembro de 2009

Hoje e há dias...

corres-me pelas veias. Envenenas-me e, por isso, só posso ser e estar assim, porque empregnas-me com os teus dedos, o teu sorriso, as tuas gargalhadas em que os teus olhos se fecham e brilham ainda mais, a tua pele sempre a arder. Só posso estar, só farei algum sentido assim, tentar diluir-me algures, por onde andas, onde estás, onde és...e o nome, tão apropriado:" instante", tão certeiro mas tão doloroso e o seu aroma tão forte, tão intenso, como tu és, serás e como gostavas que um homem fosse.
Hoje e há dias tenho sido assim, ou tentado, para te amarrar a mim ou eu a ti ou eu a qualquer coisa, já não sei.

Recado

" ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te pode falar
ou reconhecer -vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo -deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno almoço"

Al Berto
"Recado", in O Medo, livro décimo terceiro, 1996, Horto de Incêndio

Sufoco

"Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade,

Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!"

Álvaro de Campos