29 de novembro de 2009

Carta ao Pai Natal


Querido Pai Natal,
oiço Richard Hawley. Folheio uns livros, umas páginas, como se estivesse à espera da minha hora no dentista ou para cortar o cabelo. Onde estou realmente não é aqui, no html, nem em frente ao computador.Estou nela, onde nunca deixei de estar, porque nela nasci e só se pode morrer onde se nasce.
Uma vez, o meu irmão levou a sua cadelinha a ver a sua mãe (a mãe que parira a cadela, entenda-se) que estava muito mal, a morrer. Não assisti à cena, mas meu irmão e ex-cunhada dizem que aquilo foi de chorar. Que se cheiraram uns isntantes, depois a mãe lambeu a sua cria. Em suma, mesmo separados, bastante tempo depois reconheceram-se.
Amava-mo-nos com a força do sol. Acho que quando estávamos juntos éramos uma espécie de escudo um do outro, um para o outro. Ela mais claro, porque era, por várias razões mais forte que eu. Éramos, somos as duas faces de uma mesma moeda. Qualquer outro, que procure ser esse reverso, será "apenas um remendo". Sabemo-lo ambos. O prazer que tínhamos um com o outro era apenas e tão só dar prazer ao outro, viver o prazer do outro a partir do nosso, por isso falávamos tanto um com o outro enquanto mantinhamos relações, por isso buscávamos tanto os olhares e expressões, detalhes, pormenores, por isso a minha mão aidna está queimada pela sua pele.
Lembro de uma vez em que, nacasa dos pais de uma amiga sua, estava por trás dela, em frente a um espelho, eu olhava os nossos corpos e ela, olhava a minha expressão no espelho. Chamou-me ela À atenção no instante, olhei, sorrimos em uníssono.Já para o fim, dizia que eu parecia o diabo. Talvez tenha razão. Talvez seja absurdo o que digo, talvez. É no que acredito.Mesmo que eu esteja morto.
Por isso, pai natal, mesmo que saiba que fui e sou um mau menino, trá-la de volta, nem que seja como nos filmes, em que se sente um fantasma, uma presença fugaz e efémera e algum tempo depois. Mas já passou tempo suficiente. Já sangrei o suficiente. Traz uma letra saída do seu punho, uma letra que seja. Um sinal que lhe estou ainda ou ao invés, dá-me um sinal que ela me tatuou no seu corpo para eu poder ter uma morada eterna para estar.

Se não puderes realizar este meu pedido, se não for digno disto, peço-te então, realiza os dela.

Obrigado.