18 de dezembro de 2009

AO MEU ÚNICO E POSSÍVEL AMOR:MÃE

(mas -de forma justa- também a outras mulheres da minha vida:)


" No Sorriso Louco das Mães...


No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível 

amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor."


Herberto Helder, Poesia Toda; Fonte, II

(musicada também por OS POETAS (1997 Sony musica portugal Lda; Assírio e Alvim), linda de se ouvir a música).

"MÃE

 Qualquer mulher que tenha escolhido dar à luz é a garantia da ternura devida à criança, do seu direito a uma infância e a melhor auxiliar da sua educação. Ensinar a ler a uma futura mãe, é ensinar a ler a várias gerações.
(...)
MULHER
O século XXI como o XVIII, será feminino.(...) enquanto os homens continuarão a lançar-se indefenidamente em aventuras votadas ao fracasso para esquecer a morte inflingindo-a a outrém, as mulheres protegerão a chama da vida, continuando a ocupar-se da criança melhor e durante mais tempo do que os pais, assumindo drasticamente sozinhas a responsabilidade dos seus cuidados e da sua educação."
Jacques Attali, in Dicionário do Século XXI, Notícias Editorial