20 de março de 2011

No restaurante o gajo não parava, não queria comer, queria correr brincar. Em coro: deixa-o ir. deixei. em coro: que tinha muita roupa, tirei-lhe alguma. Que o deixasse andar, que assim é que é. Deixei.
A certa altura um "alvoroço" na rua, todos os olhares na mesma direcção, o joão sozinho num "canto". Levanto-me. Em direcção ao restaurante de onde eu saíra um homem sangra da cabeça. Eu em direcção ao meu filho e dois casais dizem que parece que ele nunca foi criança.
Informação a mais e desconexa para entender, mas lá entendi. João -o meu filho-, aquele cujo avô disse para o deixar ir e andar, atirara -propositadamente ou não- à cabeça de um homem uma pedra. Esse homem era o tal que se dirigia ao restaurante de onde eu saíra, ia à procura dos pais do mal educado do rapaz(falta de educação foi o que lhe ouvi pronunciar quando eu saía do restaurante). Falo com João que passa as culpas para outro miúdo com quem brincava. Volto para dentro. Olhares, holofotes na minha direcção. No caminho o agredido dirige-se-me, peço desculpa. Sento-me. O avô, o tal que achava bem que o menino corresse e saltasse, defendendo ele, sem saber o bom selvagem de ROusseau traz o miúdo para dentro do restaurante pelos cabelos. Choros, gritos. Eu, tinha o dia e refeição estragado. O avô: tens de lhe arrear mais. Ao que respondo que quando outro dia lhe bati na tua casa disseste para não bater, agora que devo bater, escreve se faz favor um manual, porque assim não sei nunca quando faço bem ou mal, como aliás nunca soube nem nunca fiz nada bem.
Outros detalhes, outra informação escuso-me, parece-me que a mais.aqui está o eseencial.
quem me conhece sabe como me sinto e sabe q a unica ideia neste momento é a da morte e a da saturação esgotamento

Agradecia que nã enviassem mails sobre o assunto. qurendo comentar estejam á vontade, mails sobre isto nºao sff.obrigado.

À MINHA MÃE

O meu único possível amor. O meu verdadeiro amor, que hoje faz 70 anos.

"Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves. "

Eugénio de Andrade


"Sabes, mãe, és um dos seres mais complexos que conheci. Muitas vezes, ao pensar em ti, lembrava.me do fiacre que foi buscar a tua irmã. Entre vocês as duas, havia um fio.
Esse fio era o teu desejo feroz de ser bondosa, para ti e para os outros, mas talvez, acima de tudo, para ti."

Georges Simenon, Carta para minha mãe


A minha Mãe e eu, há 36 anos atrás.



Alina Orlova - Nesvarbu



"Procuro-te


Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te."

Eugénio de Andrade

Aos senhores e senhoras do I.N.E.

olhem! é só para dizer que católicos, ortodoxos e protestantes são todos da mesma família religiosa, que é, imaginem catolicismo. Não são portanto "raças" à parte.
Portanto, para gastarem bem gasto o dinheiro da malta e serem rigorosos -penso que essa seja a ideia-, deviam era ter feito qualquer coisa como: Católico/a e depois abrir chavetas e depois metiam: apostólico romano; protestante e ortodoxo.


Sem título

Rumava a casa com o receio de que a mesma estivesse de luzes apagadas e em silêncio. Comprovou o seu receio quando, depois de, atrás de si  fechar os portões da garagem com o comando eléctrico, abriu a porta corta-fogo que separa a garagem do resto da casa. Nenhuma luz, excepto a da lua que, naquela noite estava extraordinariamente bela exalando uma luz indescritível, atravessava o vidro da porta da cozinha que pousava na parede. Foi quando se deu conta mais uma vez da sua solidão, como se abandonado num país estranho. Como se, de fora para dentro, fosse o espelho que ele não queria reflectir no momento do seu dentro para fora, fruto daquele silêncio, quietude. E o mais aterrador é que, arrastava-se há demasiado tempo aquele dentro para fora, consequência do fora para dentro.

Transportou-se para a praia de cigarro na mão onde ouvia o mar e  olhava a lua e a estrada que esta desenhava no mar irrequieto como uma criança, quando afinal estava apenas na sua casa, desorientado, num calmo estado de pânico.

Pensou nela  sentada na sala à sua espera. A lareira acesa e a sua luz mais a luz do seu cabelo e do seu sorriso e do seu corpo. Pensou nela com  a sua camisa azul rendada com o cinto de cetim e nas cuecas do conjunto. Pensou nela de saltos altos ou descalça, tanto fazia, porque os seus pés eram sempre delicados e o seu tornozelo e a barriga das suas pernas eram sempre um paciente e calmo braço do Douro. Pensou no seu útero e na possibilidade de vida que ele transporta e pensou nas suas redondas mamas e mais nos seus mamilos, pequenas e perfeitas colmeias carregadas de mel. Pensou no seu corpo aberto e pensou nos seus braços à sua volta. Pensou na sua delicada pele suave como o leite.
Pensou como isso seria bom, como isso lhe daria algum alento por mais alguns dias.

E em vez disso, sentia ao invés, todo o peso do silêncio a entranhar-se-lhe como um veneno a dentro, sentia apenas e tão só, o peso  das palavras que para dentro de si proferia. Sentia apenas como lâminas dentro de si, as lágrimas que simplesmente não saíam enquanto violentamente lhe batiam no peito as últimas palavras que se lembra de lhe ouvir: "Hoje, hoje meto o despertador para a hora que chegares."

A última gota de água evaporara-se de si.