Era uma vez um senhor e uma senhora que casaram e tiveram dois filhos. O senhor e a senhora eram do alentejo, duma pacata e simples vila chamada Torrão. Os seus dois filhos, claro, desde sempre estavam habituados a lá ir e gostavam. Podemos até dizer que, por gostarem tanto e terem o alentejo entranhado, um deles trabalhava nesse vila num negócio da família, o outro, trabalhava lá perto.
Nessa vila, o pai dos meninos levava-os a um café chamado Bolinha. Bolinhas era o Zé, grande amigo, um irmão até, do pai desses meninos. Esse senhor, o Bolinhas, amava esses meninos. Os meninos, sempre conheceram o Bolinhas.
Bolinhas era um café pequeno, onde havia presuntos pendurados no tecto. As paredes do café, eram praticamente todas feitas de madeira e pintadas daquilo que hoje se diz ser amarelo casquinha de ovo. Havia um balcão alto, muito alto, onde até o próprio Bolinhas tinha uma grade de sumo para se colocar em cima dela e chegar ao manípulo da máquina de café por ser tão pequeno no seu metro e sessenta.
Sempre houve o Bolinhas, o seu dono, as suas mesas e cadeiras de metal no café, contra o chão polido e em bruto, de cimento.
Mas os meninos foram crescendo e o Bolinhas, o Zé, indo para velho. E os meninos passaram a ir pelo seu próprio pé ao Bolinhas, comer as maravilhosas sandes de presunto que o Bolinhas fazia e bebiam um mini preta. Para o Bolinhas, claro, eles ainda eram e seriam sempre os meninos pequenos.
Um dia, um dos meninos foi ao Torrão, foi ao Bolinhas, mas o Bolinhas estava fechado. Achou estranho e ficou triste. Só nessa altura ficou a saber que o Bolinhas estava hospitalizado há já muito com cancro e que o pai dos meninos não lhes quis dizer, por saber que eles gostavam muito do Bolinhas.
Meses mais tarde, já o Bolinhas morrera, os meninos souberam da morte do Bolinhas. Um deles, um dos meninos, disse ao seu pai: "Pai!! pede à mulher do Bolinhas a máquina dos furos!". O Pai desligou o telefone imediatamente e foi a correr a casa da mulher do bolinhas. Pelo caminho viu a porta do café Bolinhas entre-aberta. Era a mulher do Bolinhas que lá estava. O Pai do menino pediu para o seu filho e menino, a máquina dos furos, porque repetiu o argumento à mulher do Bolinhas, "queria ficar com uma recordação do Bolinhas e da sua infância". O pai do menino contou-lhe depois, quando lhe ligou a dizer que já tinha a máquina dos furos, que a mulher do Bolinhas chorou que se fartou, porque nunca esperou que os meninos quisessem a máquina que já estava num monte de lixo para ser deitado fora.
O menino conserva, imaculada, tal como a máquina estava quando saiu do café, a máquina dos furos. Nela estão sonhos, sorrisos, estão anos de vida, recordações. Na máquina está parte desse menino.
Ei-la, a máquina de sonhos.