12 de abril de 2011
Sem título
"Trocaria a memória de todos os beijos que me deste por um único beijo teu.
E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei."
E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei."
Miguel Esteves Cardoso
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Carta ao amigo/a
Queria contar-te do silêncio do alentejo, do silêncio provocado pelos pardais, pelas andorinhas nos beirais dos telhados, pelas cigarras, pelo vento.
Queria contar-te do azul do céu,do verde da planície, das cores do arco-íris na terra pelas diversas flores.
Queria dizer-te da luz que tarda em desaparecer e que teima em rasgar a copa dos sobreiros e dos pinheiros.
Queria contar-te dos velhos de preto, de cajado na mão, boina ou chapéu na cabeça contra a cal branca a morrer com eles. Velhos, muitos deles com os olhos postos na terra porque lhes ficou o vício nas costas de olhá-la para cavá-la. Queria contar-te das mãos enrugadas destes velhos e dos cabos das enxadas, polidos pelas mãos calejadas dos velhos que arrancaram à força à terra o alimento.
Queria contar-te do cheiro do lagar. Do cheiro doce no ar já quente do alentejo em vez do cheiro da lareira e do braseiro.
Queria contar-te como o tempo tem tempo naquele lugar e contar-te das ruas toscas. Do toque do sino da igreja. de como os homens se cumprimentam de uma rua para a outra.
Contar-te do gosto e dos cheiros dos alimentos, de como de coisas simples se faz magia para os sentidos.
Do cheiro que tem a terra seca no alentejo e do barulho que faz quando a pisamos.
Contar-te do eco se gritarmos.
Queria contar-te tudo isto, porque tudo isto, em parte sou eu, mas não sei que palavras usar para te mostrar o meu sorriso e tanta beleza.
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Alentejo
Folar pobre vida rica
Ontem trouxe dois folares pobres para casa. 250 gramas cada um. Trazidos pelo meu irmão da padaria/pastelaria da família claro.
Tal como no filme Ratatui, quando o José Quitério do sítio prova a comida feita pelo ratinho e volta à infância, a mim, aconteceu-me o mesmo quando provei o folar. Não tão bom como os do meu avô ou pai, mas voltei atrás no tempo e como desejo nunca sair de lá.
Era um renault 5 da empresa onde o meu pai trabalhava e onde não tinha horário fixo e que era o seu carro de serviço, com despesas pagas incluídas. Era nele que íamos para o alentejo. Na altura levávamos 3 horas de viagem.Ainda não havia auto-estrada. Agora para percorrer menos, levo 60 minutos.
Quando lá chegávamos o cheiro, as pessoas, tudo era diferente. Íamos logo a correr para a casa do primo, o João Luís que ficava do outro lado. Era descarregar tudo e a seguir irmos visitar os avós da horta, que moravam sem luz, água canalizada, numa quinta onde a minha mãe nasceu e onde, infelizmente o João Tomás já não brincou.
Íamos lá passar a páscoa. Levávamos roupa nova para estrear. Tomávamos banho numa banheira de zinco. Água aquecida na panela e metida num chuveiro pendurado no tecto com duas argolas. Uma abria a água, a outra fechava.
Íamos lá passar a páscoa. Levávamos roupa nova para estrear. Tomávamos banho numa banheira de zinco. Água aquecida na panela e metida num chuveiro pendurado no tecto com duas argolas. Uma abria a água, a outra fechava.
Lembro-me da sala onde comíamos. Uma mesa enorme. O móvel do conjunto. O relógio de pêndulo na parede. O meu avô à cabeceira. O meu pai igualzinho ao meu avô, agora, as minhas mãos iguais às do meu avô e do meu pai. Comíamos nós, o mau avô, a minha avó, a minha mãe, pai, irmão e eu mais a Ti maria, depois de nós o meu primo e os seus pais.
Na mesma mesa tomávamos o pequeno almoço. A mesa completamente cheia: pão morno enrolado em papel, leite puro de vaca que iam entregar numa vasilha à porta, manteiga, fruta, marmelada e doce de tomate caseiros, o mokambo. Os cheiros, os sons. E, na páscoa o folar. Momento alto. O folar no papel pardo como se de uma bandeja de prata real se tratasse. O folar feito especialmente para a família. Pecado não comer o folar. Lembro-me perfeitamente. O meu avô fazia-os enormes, ainda com os ovos por cima. Eram deliciosos. Como só o meu avô os sabia fazer. Nunca me lembro de comer o folar rico, eram sempre a versão pobre, no entanto, lembro-me dele, muito rico como os dias.
Na mesma mesa tomávamos o pequeno almoço. A mesa completamente cheia: pão morno enrolado em papel, leite puro de vaca que iam entregar numa vasilha à porta, manteiga, fruta, marmelada e doce de tomate caseiros, o mokambo. Os cheiros, os sons. E, na páscoa o folar. Momento alto. O folar no papel pardo como se de uma bandeja de prata real se tratasse. O folar feito especialmente para a família. Pecado não comer o folar. Lembro-me perfeitamente. O meu avô fazia-os enormes, ainda com os ovos por cima. Eram deliciosos. Como só o meu avô os sabia fazer. Nunca me lembro de comer o folar rico, eram sempre a versão pobre, no entanto, lembro-me dele, muito rico como os dias.
E há ainda o bolo de café.
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