28 de abril de 2011

Arché 3




"Também te amo. Sim. E é estranho como uma vida inteira se me resuma a uma palavra. Possivelmente por ser a única a dizer tudo o que valeu a pena saber."
Vergílio Ferreira, Cartas a  Sandra

Arché 2




vídeo original e lindo aqui

Arché

Resiliência II

Sim sou capaz do inesperado e mais capaz do que possa parecer e muita gente pensar. Assim sendo, ontem, mostrei ao W., que não  o "meu" W. -o são tomense, este outro é brasileiro- que tenho os colhões no sítio e espero que tenha percebido que da próxima deve pensar duas vezes antes de ser arrogante e altivo comigo. O B., esse, também brasileiro e muito fixe, ria por todos os lados e ficou impávido a assistir àquilo, nunca esperando que eu fosse capaz de tal, porque sempre me viu como  " calmo e educado", ao que respondi que sou um gajo muito nervoso, muito impaciente e impulsivo, mas que como e calo, mas que, naquela situação o W. levou-me de imediato aos limites e que com a  respectiva educação meti o  atrasado mental no lugar dele.
Que se passou? passou-se então o seguinte: atendia eu uma cliente, o papelinho do pedido saiu na cozinha ao que o senhor do seu metro e tal, mas seguramente muito maior e mais forte que eu, com ar de absolutamente falta de bom senso, de sentido de oportunidade, bom, de tudo e mais alguma coisa, num tom ainda por cima de altivez, de superioridade, me diz/pergunta qual o ponto da carne. Disse eu: "ah!", perguntei à rapariga e informei o dito cujo. Continuo eu a atender a rapariga que olhava para aquele bizarro espectáculo do tipo brasileiro da cozinha que continuava não sei com quem a praguejar, ou seja, a dar uma mau aspecto enorme e sem necessidade. Fosse um gajo com massa encefálica e por sua vez educação, chamava-me à parte e dizia o que tinha a dizer, mas não, aquela imagem deprimente que deixou de tudo e todos era melhor.
Esperei que a rapariga saísse, quando saiu e o balcão ficou vazio virei-me para trás para aquilo e chame-io e disse-lhe qualquer coisa como isto: "Oh W. sei que errei, mas ninguém é pefeito e vou ficar à espera do teu próximo deslize. professas tanto as atitudes contidas para não dar mau especto e chamas e bem À atenção quando alguém faz algo de modo incorrecto e pões-te tu agora a falar comigo desta maneira À frente da cliente?!", ele entretanto começa a caminhar para longe de mim e para fora da minha frente/face e a dizer num tom de tonto e claramente de ter sido fodido por quem menos esperava quando menos esperava: "ué eu fálo assim com tôda a geinte!".
Quado me diz isto ainda fez pior. Continuei a bombardeá-lo: "Falas assim na estrumeira de onde vieste, não voltas a falar assim comigo e muito menos à frente de clientes. Falas comigo com educação que o mínimo dela fica bem a toda a gente. Comigo e à frente dos clientes não te atreves a voltar a falar assim comigo. Espero que tenha sido claro! e a partir deste momento pela diferença de idades e não só entre os dois tratas-me por Sr. João. Espero que me tenha feito entender, não voltas a falar assim comigo!"

Resiliência

Que mudou na noite de ontem para a noite de uns meses atrás (fevereiro senão erro), quando a Lua apresentava um fenónemo qualquer que só se repetirá daqui a 18 anos?
Que mudou para os necrófagos se transformarem em vegetarianos?
Nada.
Não mudou nada. E por não mudar, a noite de ontem mantinha-se linda como o brilho dos olhos de uma mulher apaixonada, linda como o corpo quente de uma mulher apaixonada ou por quem nos apaixonámos, linda como os cabelos de uma mulher, nús, soltos.
Só que ontem não houve notícia na televisão, nos jornais e por isso não há hoje fotos, nos blogs, da lua de ontem, que estava igualmente bela e a noite igualmente perfumada e rica.

Porque não mudou nada, apesar de tudo, o meu coração continua a bater e a desejar e hoje, as minhas mãos estão cheias e eu queria ser o gajo que sou com um saco de pinhões na mão e uma paralelo para os partir e sujar-me e rir-me com as coisas mais idiotas. Porque nada mudou continuo a querer sentir e a querer que sintam e a querer partilhar e a querer cumplicidade para resistir e querer mais amanhã. Porque nada mudou hoje é um daqueles dias em que o dia pode ser um touro que serei um mínusculo forcado capaz de enfrentar o que aí vier (desde que durma a santa sesta quando chegar a casa depois das aulas para enfrentar o part-time das 22 às 2 da madrugada) e o céu estará sempre azul e haverá sempre, hoje, cegonhas no ar e o ar estará carregado de pólen e de perfume e as cores inundam tudo e invadem-me ou então serei que as absorvo até ao infinito, não sei.

Hoje, estou em davidoff slim mode, a ouvir isto.



Non sense

"Duas coisas me deixam maravilhado: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”

I. Kant


“O jovem que completou a sua instrução escolar habituou-se a aprender. Agora pensa que vai aprender filosofia. Mas isso é impossível, pois agora deve aprender a filosofar. […] Para que pudesse aprender filosofia teria de começar por já haver uma filosofia. Teria de ser possível apresentar um livro e dizer: «Veja-se, aqui há sabedoria, aqui há conhecimento em que podemos confiar. Se aprenderem a entendê-lo e a compreendê-lo, se fizerem dele as vossas fundações e se construírem com base nele daqui para a frente, serão filósofos». Até me mostrarem tal livro de filosofia, um livro a que eu possa apelar, […] permito-me fazer o seguinte comentário: estaríamos a trair a confiança que o público nos dispensa se, em vez de alargar a capacidade de entendimento dos jovens entregues ao nosso cuidado e em vez de os educar de modo a que no futuro consigam adquirir uma perspectiva própria mais amadurecida, se em vez disso os enganássemos com uma filosofia alegadamente já acabada e cogitada 
por outras pessoas em seu benefício.”


I. Kant, Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766
"Queria escrever um poema com o teu silêncio,
 decifrar-te as sensações enquanto te massajo
 o corpo com óleo de amêndoas doces,
 escutar os desejos que circulam no teu sangue
 sempre que das massagens passamos à mordedura,
 ao beijo, ao corpo comparecendo ao corpo.
 Nada de segredos sussurrados ao ouvido.
 Queria transformar cada gemido numa palavra,
 num verso, e aprender a ler nos músculos 
 do teu rosto o prazer com que cada um de nós sente,
 à sua maneira, a ferida que está na origem da beleza."

 

in A Dança das Feridas, Henrique Manuel Bento Fialho