" Não se importa que eu endireite as flores do seu corpete, que foram deslocadas pelo choque? Receio que as perca, gostava de as enfiar um pouco mais para dentro. Ela, que não fora habituada a ver os homens terem tantas cerimónias consigo, disse a sorrir:
- Não, de modo algum, não me importo nada.
Mas ele, intimidado pela sua resposta, e talvez também para parecer ter sido sincero quando aproveitara aquele pretexto, ou até começando já a acreditar que o fora, exclamou:
- Ah, não, sobretudo não fale, vai perder o fôlego outra vez, pode muito bem responder-me por gestos, que eu entendo-a bem.
Sinceramente que não se importa? É que, está a ver, há um pouco de... penso que é pólen que lhe caiu em cima e se espalhou; vai permitir-me que a limpe com a mão? Não estou a fazer muita força, não estou a ser muito bruto? Talvez lhe esteja a fazer alguma cócegas, não? É que eu não queria tocar no veludo do vestido para não o amarrotar. Mas, está a ver, era mesmo preciso segurá-las, iam cair; e assim, metendo-as um bocadinho para dentro... A sério, não estou a ser desagradável? E se as cheirasse, para ver se não têm mesmo aroma? Nunca cheirei, posso? Diga a verdade.
Sorrindo, ela ergueu ligeiramente os ombros, como que a dizer:
«Não seja tolo, bem está a ver que isso me agrada.» "
Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido (Volume I . Do Lado de Swan)
