2 de junho de 2011

Indisciplina

" Não se importa que eu endireite as flores do seu corpete, que foram deslocadas pelo choque? Receio que as perca, gostava de as enfiar um pouco mais para dentro. Ela, que não fora habituada a ver os homens terem tantas cerimónias consigo, disse a sorrir:
- Não, de modo algum, não me importo nada.
Mas ele, intimidado pela sua resposta, e talvez também para parecer ter sido sincero quando aproveitara aquele pretexto, ou até começando já a acreditar que o fora, exclamou:
- Ah, não, sobretudo não fale, vai perder o fôlego outra vez, pode muito bem responder-me por gestos, que eu entendo-a bem.
Sinceramente que não se importa? É que, está a ver, há um pouco de... penso que é pólen que lhe caiu em cima e se espalhou; vai permitir-me que a limpe com a mão? Não estou a fazer muita força, não estou a ser muito bruto? Talvez lhe esteja a fazer alguma cócegas, não? É que eu não queria tocar no veludo do vestido para não o amarrotar. Mas, está a ver, era mesmo preciso segurá-las, iam cair; e assim, metendo-as um bocadinho para dentro... A sério, não estou a ser desagradável? E se as cheirasse, para ver se não têm mesmo aroma? Nunca cheirei, posso? Diga a verdade.
Sorrindo, ela ergueu ligeiramente os ombros, como que a dizer:
«Não seja tolo, bem está a ver que isso me agrada.» "

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido (Volume I . Do Lado de Swan)



A simpática besta

Terça feira uma turma fez a apresntação pública do seu trabalho de área de projecto. Enquanto professor da turma (desde o ano passado) e sendo a apresentação feita no horário da disciplina que tenho com eles não deixei de estar presente e com gosto claro.
Nao sabia o que lá vinha. Estava com curiosidade, confesso. No fim gostei, achei mesmo muito muito bom. Chmaram-me mesmo ao palco para dar umas palavras sobre eles. Não os expus, não disse uma palavra de mal sobre eles -não achei que fosse a circunstância para tal-, elogiei o que até ali já tinha visto e terminei dando a ideia de que, tendo o trabalho, como eles tiveram para fazer aquela apresentação, tem-se bons resultados. Nem de propósito e a seguir parodiaram a minha pessoa. Ri-me que havia de fazer, ri-me de achar mesmo graça. E aquilo continuou até que foram buscar ex-colegas de turma e acabaram todos a dançar e cantar uma música por eles escrita.

Hoje, uma colega que também lhes dá aulas este ano, e também estava presente, disse-me que gostou e achou que eu estava muito bem representado, que era a representação mais fiel e mais próxima da realidade de todos os professores que ali foram caricaturizados. Sorri e disse que sim, era verdade.
Virei as costas e pensei -que se fosse um dos alunos daquele grupo- como a caricaturizava a ela, simples: uma diabo, com uma longa cauda a sair-lhe do cu, uns chifres enormes com uns olhos a sangragem e bem esbugalhados e depois, de cada vez que abrisse a boca vomitava.
 Era assim que caricaturizava esta simpática besta colega.

5

Outro dia foi 22.45, ontem foi 5. 5 horas ou perto disso ou até mais um pouco, foi o tempo que o meu capacete esteve na rua, em plena Lisboa, em cima da mota. Livre, sem estar preso à mota com rigorosamente nada. Absolutamente disponível para ser levado por quem quer que ali passasse. Um capacete, tamanho M, marca BMW, 5 horas ali esteve toda a noite enquanto trabalhei no part-time e ninguém mo levou. Incrível!

Espanto

Espanto dizem, foi o motor que deu origem à filosofia. Espanto do homem, perante a realidade que o rodeava.
Continuo a espantar-me com muita coisa, nomeadamente com aqueles que se espantam com a violência escolar e/ou entre adolescentes e com a violência com os recrutas militares.
Espantarem-se com isso, significa que não têm a mais pequena noção da realidade e que portanto, quando falam sobre ela -realidade-, não fazem a mais puta ideia do que falam.