Saio do trabalho. Caminho em direcção a um bar para uma cerveja depois do part-time, o bar está fechado desde as 23. Eram umas 23.30. Dou a volta ao quarteirão e procuro outro. Aberto felizmente e logo rasgo um sorriso. Primeiro pé dentro e uma música com sonoridade demasiado viva vem ao ouvido. Caminho em direcção ao som e não ao bar, não ao balcão ou uma mesa. Intrigado com o som cada vez mais vivo e real, ando e penso que alguém toca ao vivo mas simultaneamente cogito que não é possível. Desço umas escadas apertadas e a humidade vai aumentando, o som cresce, vários instrumentos. Finalmente uma sala ampla, paredes caiadas de branco, dois tectos em abóboda muçulmana com tijolo que conheço por tijolo de burro. Venho a cima a correr, peço um copo de vinho branco que se mostrou agradável. Muito frio de início. Volta-se a correr lá para baixo onde 4 homens tocam. bebe-se o vinho de que gostei e liberta-se o corpo, a alma e o coração de toda a sujidade dos dias. A música e um copo de vinho. 4 homens que tocam. 3 em tronco nú e 2 de calções, só um vestido por completo. Um baixo eléctrico, uma guitarra clássica eléctrica, um acordeão tocado por Michelle e uma flauta transversal. A música tocada em cumplicidade. Claramente já tocavam há muito tempo juntos, 4 anos venho a saber no fim do "concerto" que afinal era um ensaio para sexta feira, ou seja, amanhã. A música, ou algumas, faziam lembrar Madredeus, mas acima de tudo fizeram-me viajar e ficar mais leve. Vinho no fim, subo e peço outro. Talvez 30, 40 minutos de puro prazer e inesperado. Sei que sorri todo do início ao fim. Uma noite cheia, perfeita.
E aquela música repete-se às quartas feiras.
Falei ainda com Michelle e fico a saber que é o autor de todas as composições que pude ouvir. Que aquele ensaio era para ser levado a sério na sexta feira, na Fábrica Braço de Prata às 23 (ou 22) horas. Fico a saber que hoje dará um concerto privado na Embaixada de França e que toca sábado na LX Factory e que domingo estará no Tivoli, que naquele conjunto, o do baixo, um rapaz novo, o mais novo, ainda toca um piano, mas que hoje não o levaram. Percebi que aquilo é um ensaio para um futuro projecto que espero se erga solidamente porque achei deveras bonitas as músicas.
Adorei aquele pedaço minúsculo do dia passado à noite. Simplesmente senti-me bem, calmo, muito calmo. O vinho e a musica e o espaço muito bonito, austero, simples a fazer-me lembrar as casas no alentejo fizeram-me melhor que muito comprimido.
No fim, Michelle despede-se de modo inesperado incentivando-me à vida e ao sorriso: "Até quarta -feira!"
Tudo isto passado muitíssimo perto do part-time, aqui.
E nada disto descreve o meu contentamento de ontem à noite, depois do anoitecer.