Foi há dois dias que vi o homem. Vi-o perto de casa de meus pais. Quando o vi a primeira vez descia ele a rua, depois parou jutno ao caixote do lixo e abrindo a tampa do mesmo começou a remexer no lixo.
O homem era magro, alto, talvez por volta da minha idade. Trazia uns ténis que em tempos foram brancos, agora já eram amarelos. "batidos" os ténis, de muito usados. Umas calças de ganga claras. Um dos bolsos traseiros estava rasgado. No outro bolso uma chave de fendas. Trazia uma mochila vazia às costas e um saco grande, cheio, na mão. Mais tarde ao vê-lo mexer no saco, vi-o tirar roupa de lá de dentro, toda dobrada e arrumada. O homem tinha barba e pele morena. A cara era cavada por aquilo que não tinha. As mãos encardidas de mexer no lixo.
Estava na rua com o meu filho e meu pai. O avô ordenou ao neto "anda práqui!", claramente por repulsa daquele homem, medo até talvez, nojo. Fiquei um pouco indignado, só vi sofrimento, tristeza e humanidade no homem.
Enquanto brincávamos na rua, o homem remexia o lixo. Rasgou um saco de lixo e apanhou uns dvd's e umas caixas de dvd's. Demourou-se a arrumar os dvd's nas caixas. No fim guardou-as no saco que trazia na mão. Terá remexido mais no lixo mas não me dei conta.
O meu pai entretanto foi-se embora e quando me dirigia eu para o carro com meu filho aparece minha mãe à janela. Comentei com ela sobre o homem, ambos sofremos. Quase chorei. Caiu-me o céu na cabeça, levei um enorme murro, parecia que ia desmaiar. Meu filho pergunta-me porque estou assim e porque suspiro, digo-lhe que é de tristeza de ver o senhor a apanhar lixo e de ser pobre.
Entramos no carro e o homem dá sinais de se ir embora. Puxo a carteira para confirmar que lá estão 5 euros. Confirma-se. O homem agarra no saco e vai-se embora. Saio com o carro e vou na direcção dele com a nota de 5 euros na mão. Abro a janela ao lado dele e digo dando-lhe os 5 euros: "toma!", diz ele: "deus lhe pague!". Não disse mais nada. Arranquei com o carro, o meu corpo tolhe-se e sofre profundamente. O meu filho pergunta porque dei dinheiro ao senhor, respondo que para ele comer, mas penso que se calhar nem é para ele comer, mas a sua mãe, ou mulher ou filhos, ou que servirá talvez para outra coisa mais importrante do que aquela onde eu os gastaria. Os olhos incham-me e saem umas lágrimas. Dou a volta ao quarteirão e avisto o homem que também me avista. Levanta-me o braço como que a cumprimentar, como se me conhecesse há anos e fossemos grandes amigos. Também levantei o braço. Dos olhos caíam-me umas lágrimas. A voz treme-me.
Só o meu filho me distrai do homem e com uma conversa que me incomoda: "quando tiveres muito dinheiro podes comprar-me o carro elétrico do faísca?". Mas eu só penso no homem, aquele homem, que representa tanto, que significa tanto.
O homem...
imperativo categórigo kantiano:
". Age somente segundo uma máxima por meio da qual possas querer ao mesmo tempo que ela se torne lei universal."
. Age de tal maneira que a máxima de tua vontade possa valer igualmente em todo tempo como princípio de uma legislação universal."
. Age de tal sorte como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da Natureza."
. Age de tal maneira que trates sempre a humanidade, tanto em tua pessoa quanto na de qualquer outro nunca simplesmente como meio, mas ao mesmo tempo e simultaneamente como fim."