1 de fevereiro de 2014

             "Não sou nada.
              Nunca serei nada.
              Não posso querer ser nada.
              À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
      Janelas do meu quarto,
      Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
      (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
      Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
      Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
      Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
      Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
      Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
      Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
      Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
      Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
      (...)
      Falhei em tudo."
Álvaro de Campos, Tabacaria