29 de abril de 2019

Os outros não sei. Os outros, ou seja, vocês, ou seja, até mesmo ninguém porque este espaçito já não é o que era -não faz mal-, não sei. Eu tenho. Eu, dos outros, de alguns homens, de algumas mulheres, de algumas pessoas, tenho inveja. Não pela beleza, não pela riqueza, não pelos bens que possuem, não pelo que já viajaram, viram e provaram. Invejo muitas pessoas pela sua racionalidade e, com ela, serem capazes de se distanciar e analisar logicamente as situações. Com ela, simplesmente serem capazes. Não deixarem que sangue e soro se misture. Com ela, serem capazes. Com ela, serem o que querem. Não que sejam perfeitos, tenho noção que o não são, mas são capazes. Eu não sou. Simplesmente não sou.



"Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar!
Quando voltar, é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça, é tudo tão verdade!"
Almada Negreiros

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