Como o Natal, a Páscoa é uma época eminentemente religiosa. Multiplicam-se em blogs e facebooks, as mensagens de boa páscoa, sendo que, atrevo-me a dizer, poucos terão noção absoluta da dimensão religiosa da Páscoa, quer dizer, do seu cariz profundamente religioso. Eu, sendo um louco minimamente erudito criado numa família dita católica, tendo estudado numa Universidade Católica, tendo pertencido ao Corpo Nacional de Escutas que é uma entidade também religiosa, tenho bem presente que, como já disse, a Páscoa não é outra coisa senão um momento religioso.
Eu, assumindo-me como agnóstico, sei, em todo o caso o porquê de a cor roxa ser a cor exibida nesta época pascal; sei porque hoje, sexta feira santa, se não deve consumir carne e porque se costuma comer o cabrito no Domingo de Páscoa. Se cumpro esta tradição é pelo respeito pelo momento religioso que a época representa.
Oiço frequentemente a expressão "sou um/a católico não praticante". Esta expressão demonstra a hipocrisia e o desconhecimento de matérias teológicas. Poderei ser criticado pelo que a seguir direi, mas, em abono da verdade reitero que as singelas palavras seguintes são factos comprovados por qualquer religião: é impossível ser um católico não praticante, assim como é impossível ser de uma qualquer outra religião, mas não praticante, isto pela simples razão que, qualquer religião se rege por um conjunto de princípios/regras/dogmas que têm de ser seguidos à risca. Logo, não é possível dizer-se desta ou daquela religião mas não praticante. Não, ser de uma religião é precisamente o contrário, ou seja, por em prática no dia a dia o que aquela religião dita.
E aqui está a pedra de toque da questão. Seria o mesmo que dizer sou piloto de fórmula 1 mas não sei o que é o acelerador; ou sou pai mas não tenho filhos, etc etc
Ser religioso, seguir à risca os ditames de uma religião, por em prática no dia a dia aquilo que a religião "manda" não é fácil nem é qualquer um(a) que o consegue. A própria Madre Teresa de Calcutá afirmou que muitas vezes tinha dúvidas.
Dizia, aqui está a pedra de toque do assunto. Muitos dizem-se religiosos, mas poucos o são de verdade. Muitos, dizem-se boas pessoas, mas poucos o são. Porquê? porque desconhecem os princípios base da religião, os chamados Dogma ou desconhecem os princípios aristotélicos -em vigor até hoje- do que é a amizade. Ou ainda, conhecendo, não conseguem implementar no seu dia a dia esses mesmos princípios, quer os religiosos quer os aristotélicos relativos a princípios morais de vida. Assim, muitos andam enganados sobre si próprios, julgando-se fervorosos religiosos e boas pessoas, exemplo máximo e último para tudo e todos, mas que, na realidade desconhecem as suas enormes falhas enquanto supostos religiosos e cidadãos exemplares. Essa é a dificuldade, levar até ao limite esses dogmas e os princípios aristotélicos presentes na obra Ética a Nicómaco. E aqui volta a erudição de um louco ou maluco como eu sou. Como Kierkegaard, bem observou, ser Cavaleiro da Fé, é uma tarefa gigantesca, extraordinariamente difícil, ao alcance de poucos, muitíssimo poucos. Poucos, como Abraão levam ao limite as suas crenças, os dogmas, os princípios aristotélicos, ou seja, poucos sacrificam o que de mais pessoal e íntimo têm, à imagem de Abraão que se preparava para sacrificar o seu filho, o seu bem mais adorado e que tanto lhe custou a ter, tanto sofrimento gerou em Abraão e a sua mulher, Sara. O filho de ambos, Isaque, só chegou quando ambos - Abraão e sara- tinham já uma idade na casa das centenas, no entanto, Abraão nunca pensou duas vezes em sacrificar o seu filho em nome de Deus. Quantos de nós seríamos capazes de tal façanha? poucos ou nenhuns mesmos. É fácil dizer que sou religioso, que sou óptima pessoa, no entanto, provavelmente, dificilmente me disporia a abdicar de muita coisa e este é o erro de todos ou quase todos, de nada ou pouco abdicam julgando ainda assim que são exemplos, por isso, melhores que os outros.
Se queremos mesmo ser tidos por exemplos e julgar os outros -direito que ainda assim nunca nos foi conferido, nem no plano religioso nem moral-, temos de abdicar de tudo, mas, como já disse, isso é algo extraordinariamente enorme por isso mesmo, "muitos são os chamados, poucos são os escolhidos".
Apesar de louco, que sei que sou, já o digo desde 2010 por aqui, consigo ter noção que nunca seria chamado e muito menos escolhido. Não detenho essa hipocrisia, sou muito mais humilde, nem escolhido me consideraria, porque sei à partida da dificuldade de me assumir integral e completamente. Sei que não consigo ser o Cavaleiro da Fé que Kierkegaard refere, por isso, não ostento essa hipocrisia que assola os nossos dias e transparece em todos os domínios da realidade, onde, a World Wide Web e este mundo, a bologosfera se insere. Não sou o homem light que Lipovetsky tão bem caracterizou, simplesmente porque sei que os dias e tudo o que isso acarreta, não pode ser levado de ânimo leve, ainda que me seja impossível ser Abraão.
Não sou certamente o Homem que Nietszche procurava com uma lanterna no meio da praça, porque não sou um Cavaleiro da Fé, nem um aristotélico puro e duro. Muitos ou todos não o serão também, pelos argumentos que já aduzi, no entanto, sem terem noção todos ou muitos vivem agrilhoados na caverna.