Como começar...não sei mesmo, porque quero dizer muitas coisas, depressa e bem, ser claro e não é fácil organizar as ideias, os sentimentos.
Há duas noites atrás, depois de chorar em silêncio, com lágrimas a caírem e sem adormecer ao fim de 2 horas e meia na cama tomei o amigo para o soninho, meio apenas chegou e assim não acordei marado na manhã seguinte.
Chorei por muita coisa, mas principalmente por estar a perder a minha mãe.
Há uns dias que tenho ido jantar a casa de meus pais. Dói, muito. A grande custo arrasta-se pela cozinha para fazer uma qualquer coisa básica, elementar, mas, o AVC de há uns anos atrás deixaram marcas, muitas e fundas. No pescoço, na intervenção à carótida, durante a qual foi considerada cadáver, mas vá-se lá saber como voltou tudo a funcionar.
Lembro-me quando começou a sua decadência enquanto mulher e minha mãe. Quando, dias após o casamento do seu filho mais velho, perto de casa, ainda sem AVC, caiu partindo um pulso. Estava nesse ano a dar aulas em Elvas, tinha um peugeot 206, com a primeira viagem feita a Ermesinde, para o estrear. Foi a hospital porque a obriguei. Doutra forma, com a sua força e teimosia não o teria feito. Daí até hoje, tem sido sempre a decair infelizmente.
Depois o AVC, e a partir daí a queda foi mais intensa.
Lembro-me que era sempre a última a deitar-se, para arrumar a cozinha, a roupa, as refeições para o dia seguinte e para, depois de todos deitados e tudo feito ainda ir arranjar forças para bordar vestidos de noivas, galões para a marinha, para a TAP, enxovais, etc. Lembro-me do seu sorriso e do rosto com poucas rugas. Lembro-me de ser completa e totalmente autónoma, de não precisar de ninguém e todos precisarem dela.
Depois do AVC, fiquei três meses com ela em casa. Não vi outra possibilidade. recusei colocações como professor para o efeito. Só eu sabia tratar dela e acho que foi a única coisa até hoje que realmente fiz para lhe dizer que gosto muito muito dela.
A minha mãe, sem que eu diga nada -como a Malena- topa-me a léguas. "Então o que é que se passa?!", estou a ouvir claramente a voz da minha mãe a dizê-lo.
Continua a fazer-me a açorda de alho e as ervilhas com ovo, que são os meus pratos favoritos. Agora, com o mesmo amor, mas com muita mais dificuldade, faz para o neto, meu filho, também João como o seu pai e meu avô materno, faz costeletas de borrego grelhadas e puré de batata e tété, é a Avó Vina, para mim é Mãe.
Mas cada dia que passa vejo-a mirrar e morrer e aquele cordão umbilical que ainda havia entre nós e que inevitavelmente ainda existe vai secando, por força do seu cada vez mais estado de saúde debilitado.
Sou muito parecido com a minha mãe em muita coisa e sou, dos dois filhos que ela Ama incondicionalmente, o predilecto.estou sempre a dizer-lhe: "SE a Avó Tina (sua mãe) visse o joão tomás?!" e aí arranco-lhe um sorriso e ela diz: "OOOHHHH!!!".
Uma vez disse-me a chorar e eu tive de ser forte como sempre nessas ocasiões: " A tua melhor amiga está tão doente!"
Lembro-me dela na horta de cabral (onde ela nasceu) a gritar altíssimo e com uma voz muito estridente: "Minha Mãe!!!", a chamar a minha Avó e depois ficava o eco e vinha a resposta: "Aqui!!!"
Lembro-me dela e do seu irmão, o Vanito, também João de nome e de irmos de noite, no verão, a pé para a vila. O meu tio ora me levava a mim ora ao meu irmão ou ao nosso primo, também João, João Luís (aquele de quem tenho saudades da voz e que foi aluno onde pelo segundo ano sou professor) às cavalitas.
Lembro tanta coisa dela. De a ver com o xaile de lã vermelho da sua mãe às costas, debruçada a bordar. Do cheiro da sua pele, do cheiro do seu primeiro perfume, do tuperware que ela me levava à cama com leite morno.Lembro muita muita coisa. De ela ter pressionado o meu pai a inscrever-me na Universidade Católica, lembro das fitas de curso que ela bordou e que já aqui coloquei imagens e que, havia quem, na benção das fitas, me agarrava para vê-las! Lembro de muitas histórias que ela me conta sobre quando eu e meu irmão éramos pequenos. Mas a imagem mais forte é de a ver a circular pela casa, do som dos seus passos, da sua voz, do barulho em casa enquanto ela fazia as coisas. É como a tento ver ainda, fantasma capaz, cheia de força a circular, a preencher a casa, apesar de a ver cabisbaixa, sentada à cabeceira da mesa.
Este ano, como sempre, bem antes dos meus anos perguntou-me: "Que queres filho?". deu-me então um cheque para comprar umas camisas. Não as comprei de marca como ela gostaria, porque gosta de ver os filhos com o melhor.
Desde terça que vivo (ainda mais) triste por ter sabido que, já por mais de uma vez disse a meu pai que quer ir para um lar. Claro que não o permitirei, nem meu pai, nem meu irmão.
Já me deu, mais uma vez a sua prenda de anos, dos meus 36 anos,. talvez a última que receba dela. Por isso mesmo, este mês, quando fizer anos também lhe vou dar uma prenda: um abraço enorme, muitos beijos e um ramo de flores enorme, porque lhas prefiro oferecer enquanto viva.
isto levou muito tempo a escrever, porque me fartei de chorar. não quero saber de erros, de falta de organização, nemde nada. como está é como fica.