Éramos três a querer ver a minha mãe mas só dois podiam entrar. Ainda pensei que conseguisse vê-la depois de saírem as outras duas pessoas, mas não tive sucesso. Enquanto isso, esperei, num átrio pequeno junto a umas escadas.
Vi passarem algumas pessoas pela escada e uma marcou-me. Uma mulher nova, chorava porque o prognóstico sobre a tia era que podia estar por horas a sua morte. Soube isto, porque ouvi da própria para duas pessoas que esperavam por ela ali ao meu lado.
E pensei, meu deus como tudo isto é bizarro, estranho. Devia saber que todos os seres são mortais, porquê a aflição? a aflição é por razões óbvias, as mesmas que me deixam a mim mesmo triste pelo estado de saúde da minha mãe que se encontra hospitalizada para operação à vertebra D12 (é diabética tem hiper-tensão e teve um AVC há uns 15 ou mais anos; já foi operada às carótidas e foi declarada cadáver nessa operação e vai a caminho dos 75 anos). A aflição daquela mulher é a minha, é a de qualquer um, perder-se quem se gosta, quem se quer, quem se precisa. Mas é estranho, porque sabemos que somos mortais. E muitos dizem que são religiosos, então ainda menos razão teriam para ficar tristes, porque quando morrer esse alguém, irá para um sítio melhor, para perto do criador. Não convém esquecer que segundo a religião esta vida terrena é apenas um ponto de passagem para uma vida muito melhor que esta. Lembro-me ainda do professor Cassiano Reimão. O professor Cassiano Reimão leccionou-me 3 seminários no curso de filosofia, sendo que o último foi o de liecenciatura. O dito pofessor esteve sempre muito ligado à perspectica existencialista da filosofia, pelo menos nos seminários que me orientou. Aliás, a sua tese de mestrado é sobre Sartre e a tese de doutoramento - a que assisti à prova na Universidade Nova de Lisboa- é na mesma linha. Certa aula, falando-se sobre a experiência da morte, sobre a própria morte -numa altura em que o pai do profesor havia morrido-, o professor Cassiano Reimão fez um bonito e inteligente discurso sobre o tema, comparando a nossa visão -filosofia- com a da filha, que, era, na altura, estudante final do curso de enfermagem em St. Maria. DE tudo o que ele disse nesse discurso, lembro-me perfeitamente de ele dizer que achava que a filha lhe apresentava uma perspectiva completamente diferente da que nós em filsoofia tínhamos da morte, da experi~encia da morte, da dimensão do eu, da corporeidade, do corpo, da dor, da alma. da pessoa. Dizia o professor que nós devíamos passar uns tempos a assistir a autóspias e a acompanhar o trabalho dos médicos e enfermeiros e perceber a perspectiva deles sobre a morte, a dor, etc. Dizia ele, que, os médicos e enfermeiros deviam vir para a nossa faculdade ganhar a nossa perspectiva sobre a morte, a dor, a pessoa, a alma, etc.
Não fosse esse curso não me seria, provavelmente possível racionalizar isto. No entanto, o medo de perder a minha mãe é enorme e não imagino como suportarei a vida sem a minha mãe.
Espero que amanhã consiga vê-la.