13 de março de 2019

A mulher do sax

É uma  mulher alta. Magra. Deve medir 1.85/1.90. É feia. Tem um nariz saliente, veja-a sempre de calças de ganga e uma camisa. reparei que hoje tinha uma trança. Cabelo castanho. Encontro-a com frequência na estação do metro que uso, "Green Park".
Está sempre do lado direito, depois de descer as primeiras escadas rolantes, no "ponto" autorizado pelo Mayor da cidade.
É alta e magra e feia. Toca um saxofone que não sei naturalmente o nome. parece um clarinete, mas é um saxofone pelo som.
É pelo menos a terceira ou quarta vez que a vejo/oiço. Não costumo gostar das músicas que toca. Já reparei que forma apenas uma bolsa de ar na sua cara, do seu lado esquerdo enquanto toca o saxofone.
Hoje, quando descia as escadas, reconheci o som do saxofone. Achei bonita a música e quando a vista permitiu, confirmei que era mesmo a mulher alta magra e feia do saxofone. Como gostei da música, abri a carteira e procurei uma moedas. Desenrasquei 60p, o equivalente a uns 80 cêntimos. Deitei-os para dentro da caixa do instrumento onde identifiquei muitas moedas de um 1 pound. Levantei a cabeça e fiz um sinal de "bom", "obrigado". Tinha os olhos fechados. Fiquei triste porque não viu que deixei o que pude. Fiquei contente porque me lembro que das outras vezes que vi a mulher magra alta e feia do saxofone, tocava de olhos abertos.

Os enamoramentos - javier Marias

Despia-se vagarosamente, como as árvores. Despia-se calmamente. Ao contrário das outras mulheres. As outras mulheres demoravam a vestir-se, a arranjar-se. Pois ela não. Despir-se, para ela, era compor-se, daí a lentidão em gestos desenhados por uma matemática feita de uma razão apaixonada. Tirava a roupa e dobrava-a em gestos desenhados por réguas e esquadros.
Despia-se, sem pressa.
Tirava toda a roupa, deixando apenas a lingerie. Nessa altura, sentava-se na beira da cama e calçava os seus saltos altos.
Demorava a chegar aqui. O tempo que as outras mulheres levariam a arranjar-se; o cabelo, as unhas, a maquilhagem. Ela, era tirar a roupa que lhe roubava o tempo até que a primavera do seu corpo se desse todo, nas suas férreas e apaixonadas curvas femininas de mulher.

9 de março de 2019

Devia ser simples. Fazer as preparações, para, à hora do serviço, dá-lo. Dá-l signifca ouvir/ler cada ticket e preparar o que é devido à minha bancada. Mas, mas...há a minha cabeça que me desgraça. A falta de confiança e a falta de focar e concentrar. Sendo racional, creio, nem se pode dizer que tenha feito um mau trabalho. De facto, a primeira mesa demorou e sem necessidade, até porque havia, à altura, poucos tickets. O sub-chefe apertou-me os calos e como eu tremi por uns minutos largos, mas como digo, o resto da noite correu bem. Mas há sempre o peso sob a cabeça, a auto-condenação...devia ser tudo simples mas há sempre a minha cabeça pelo meio, que eu tento mas não consigo controlar...há este misto de sentimentos, uma vontade vertiginosa de relatar tanta coisa, os Bentleys que me habituei a ver diariamente, Londres imponente, o sem-abrigo com telemóvel, a polícia no metro, as obras na casa e no meu quarto que vêm interromper a minha rotina, invadir a minha pouca privacidade, as músicas e as memórias de tanta coisa que são a minha companhia diária. Não ter ninguém, absolutamente ninguém para falar dói.
É uma profissão dura, como tantas outras, não é mais dura que outras, mas é difícil, como a vida, por isso,é um sítio onde não há amigos. Passo a tarde a falar com eles (alguns) e depois, quando menos se espera, caem em cima sem misericórdia. Mas a culpa é minha que não respondo. Não é profissão para não se responder, mas eu não respondo. Como hoje, ao fim da noite, o colega J. fez o favor de me apontar partes da bancada que estavam com manchas, que tinha de limpar...sem que, naturalmente eu, tivesse metido o nariz nas limpezas dele ou respondido à sua observação
terei dito tudo?
ah pois, hoje é sexta feira, dia de as mulheres (?) saírem à rua como se estivessem em Portugal no Verão e fossem para o casamento da rainha...muitas delas, nada mais que miúdas que não fazem nada mais que ser ridículas. poucas das que se arranjam para parecer mulheres, das que vejo,poucas o são mesmo. Poucas têm a postura e a atitude de mulher. A maioria, julgo, não passa de barbies que dão nas vistas sem dúvida, mas ao ponto de serem ridículas no seus saltos altos completamente abertos, óptimos para o frio e chuva de Londres e as suas poucas vestes que igualmente as agasalha deste calor tórrido londrino.
terei dito tudo? talvez não. Mas é tarde. preciso dormir. Passar à frente. Descansar dos medo de hoje para os voltar a enfrentar amanhã, porque sempre que estou acordado, tenho um enorme desafio que é chegar ao fim do dia. Enfrentar um dia inteiro de solidão, onde, às vezes, já dou por mim a pensar em inglês misturado com português. Dormir, descansar, fugir às horas, porque acordado, tenho de ser como o Lucky Luke, mais rápido que a própria sombra.

3 de março de 2019

Soho



Não sei se esta "Soho" é a Soho londrina que já percorri por duas ou três vezes, e que, ainda assim, nada conheço dada o seu tamanho e encanto, beleza e excentricidade. Quero achar que sim, que é. 
Não sendo a música favorita dos The Pogues do meu pai, quero acreditar que esta é a Soho que infelizmente o meu pai não conheceu, por isso, um dia, vou a Soho beber uma pint pelo meu pai.

Velar

ve·lar 1 - Conjugar
(latim vigilo-are)
verbo transitivo
1. Estar de vigia aestar de guarda ageralmente durante as horas habitualmente dadas ao sono. = VIGIAR
2. [Figurado]  Proteger.
3. Proteger.
4. Não abandonar.
5. Interessar-se com vigilante zelo.
6. Exercer vigilância sobre.


"velar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/velar [consultado em 03-03-2019].


Sempre que regresso a casa, lá está ele. Todos os dias, seja a que hora for...acredito que seja a minha mãe a velar por mim, a cada minuto que aqui estou.

1 de março de 2019

O dia em algumas imagens

à saída do metro...descoberto por acidente
a caminho das imagens abaixo tiradas dou-me com esta placa num edifício...






"aquela" rodela de vinyl continua a ser mágica assim como o som destes dois senhores juntos

"Supermarine Spitfire foi um avião de caça britânico utilizado na Segunda Guerra Mundial, e foi o único caça aliado que operou durante todo o conflito.Projetado em 1936 por Reginald Mitchell (criador, na década de 1920, do também famoso Supermarine S6), entrou em serviço em agosto de 1938, na versão Mk I. Seu nome do inglês spit (cuspir) e fire (fogo), pode ser traduzido como "cuspidor de fogo" e designa uma pessoa (especialmente mulher) de temperamento explosivo.[1]"



26 de fevereiro de 2019

Primeiro estranha-se





" (...)
  Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
  E eu acreditava.
  (...) "
É segunda feira, mas, quando saí, achei que era sexta ou sábado, tanta mas tanta gente na rua e os bares/clubs com filas enormes à porta.

24 de fevereiro de 2019

Sinto-lhe falta do corpo, nú e todo disponível para mim como o céu sem limites para um pássaro voar.

Ele, o Naoris

Naoris.
Não sei por onde começar. Podia começar que estávamos a bater os dois os dentes de frio, mas não, é o nome: Naoris. Começo por aqui, chama-se Naoris.
Estávamos sentados os dois, estupidamente, dei-me depois conta, à sombra, quando ao lado estava um banco ao sol.
Comecamos a alar quando uma rapariga lhe perguntou onde era o centro da segurança social. Ele respondeu-lhe e disse depois: ainda eu acho que falo mal inglês. Foi aí que comecámos a falar. falámos. Ele tem 24 anos num corpo de homem. Alto, forte, robusto, cabelo castanho escuro, passava por um italiano, espanhol ou até mesmo português, mas não, era de uma ex-república da Urss do Báltico. E dizia ele que no país dele estavam -20 graus mas que não era tão frio como aquele dia em Londres. era um vento frio, muito frio.
falamos durante cerca de 30 minutos. O tempo de o naors ir ao encontro da sua hora que era antes da minha no centro da segurança social.
Era a segunda vez que estava em Inglaterra. Estava a trabalhar numa empresa de limpezas numa zona de casas de milionários, disse. Não tinha vergonha do que fazia, mas disse-me: tenho apenas 24 anos, hei-de conseguir melhores empregos. Certamente pensei. Não tenho nada a perder disse-me. De certeza pensei, e disse-lho. Despediu-se, era hora de ir. Continuei, sozinho mas mudei de banco. Quando chegou a minha hora entrei, sentei-me e lá estava ele, o Naoris.
Quis pedir-lhe o telefone, mas não o fiz. Uma certa dose de desespero e vontade de querer criar laços com alguém. Mas não o fiz. Pelo meio da conversa o Naoris comentou que trabalhava longe dali, por isso achei que não faria sentido. procura-se uma amizade para beber uma cerveja, fugir da rotina e matar a solidão.
Naoris. Era de uma república do báltico. Alto, forte, bonito e inteligente pareceu-me.
espero que o Naoris esteja bem e tudo lhe corra pelo melhor.

22 de fevereiro de 2019

cheguei agora a casa. a casa que não é a minha casa. que não me diz boa noite até amanhã, que não tem os cheiros que já não conheço.
tenho razões para achar que o dia correu bem e razões para achar que o dia correu mal. Estou cansado, cansado até ao último poro, não sei como aguento, como o meu corpo aguenta.
e há o naoris de quem eu tanto quero falar, mas este cansaço não deixa.
já na cama, sem banho tomado nem nada no estômago, bebo uma sagres. sim, uma sagres, encontra-se com facilidade.bebo-a porque sim...não consigo falar do naoris. não sei como aguento.

17 de fevereiro de 2019

3 semanas. Passam hoje 3 semanas que aqui cheguei. Tanta coisa já se passou, já verti umas lágrimas quando a vontade foi de chorar muito, mesmo muito.
Aqui, sozinho, todos os meus defeitos e qualidades são amplificados e noto-os à flor da pele. A dificuldade de concentração acima  de tudo, a ansiedade, mas a força de vontade, a resiliência por outro.
Desde há muitos dias que aqui queria mesmo escrever. Achei, nesta altura, que fazia sentido, mas fui deixando passar os dias. Dias que não são muito diferentes dos que vivia  em Portugal, quer dizer, nos acontecimentos, no que realizo em acto. casa trabalho, trabalho casa, sendo que, no caso, aqui, não é a minha casa nem  o meu quarto nem nada do que é meu, é tudo emprestado por um aluguer.
Falo de Londres, Inglaterra onde cheguei dia 27 de Janeiro.
O trabalho tem sido muito duro, muito violento física e psicologicamente. Com duas semanas de trabalho, num fim de uma noite, o chefe, a sorrir, pergunta-me como correu o serviço e o que estava a achar...o que foi fazer...foi difícil falar no meio de tanta comoção, de tantos soluços, mas lá falei. O chefe, boa pessoa sem dúvida. Abraçou-me e foi carinhoso. Foi honesto dizendo que teria de puxar por mim e que nada tem contra mim.

Gosto do tipo de cozinha que se faz onde estou a trabalhar: honesta, bons ingredientes, bem preparados, excelentes recortes de cuidado com pequenos elementos que fazem a diferença, destaco o creme de brandy que eu próprio preparo todos os dias e que acompanha uma sopa de lagosta, qualquer de extraordinário.

Mas é duro fisicamente, 4 dias a trabalhar das 8.30 até as 23 num ritmo alto a que já não estava habituado.

E Londres é outro mundo É uma cidade bonita, não mais bonita que Lisboa ou Porto, na minha opinião, mas os padrões de riqueza são outros, o tipo de vida é outro. Há aqui de tudo, tudo o que não imaginamos existir descobrimos aqui que existe. Tudo o que é novidade e extraordinário em Lisboa/Porto é banal por aqui. Não há dia que não me depare com mais uma grande marca, um grande nome, um grande espaço de compras com marcas de renome. Não há dia que não oiça o roncar de um lamborghini ou ferrari ou bentley ou Rolls Royce e no fundo, naquele que é o meu dia a dia, não noto grande diferença. As pessoas que se levantam cedo e entompem o metro. As pessoas ao telemóvel a fazer sabe deus o quê. As pessoas ao telemóvel de head-phones. No fim do dia as pessoas cansadas, a dormirem, adormecidas no metro a contrastar com o buliço da noite. Eles e elas, das mais diversas etnias e idades e estratos sociais engalanados muitas das vezes, como se fossem sei lá para onde...para a noite dos Óscares...Picadilly Circus cheia de gente como se se tratasse da hora de ponta, soho cheia de gente, como se se tratasse da hora de ponta, como se algum incidente tivesse ocorrido e dali ninguém conseguisse sair.

Eu caminho só pelo meio de todas estas palavras que há tanto andava para desabafar, caminho só entre a linha do tube de picadilly e jubilee, sem o cheiro da nossa lisboa nem do nosso tejo. Aquilo que me era estranho tornou-se para já normal e o dia a dia até sabe deus quando. Vamos a ver se este sacrifício vale a pena. O sacrifício de uma solidão quase auto-imposta em jeito de prisão e punição, este sacrifício do silêncio. este sacrifício de te deixado tudo, absolutamente tudo para trás. O amor de tudo para trás. O Amor por tudo e todos para trás numa outra tentativa de andar com mais força para a frente.

1 de outubro de 2018

9 anos depois de começar este espaço, aqui volto. senti a curiosidade, a vontade.

22 de junho de 2016

É o fim da noite da minha primeira folga da semana. É certo que me esqueci de uma ou duas tomas do ácido valpróico e a benzodiazepna receitada acabou ha 3 dias, mas, agora que aqui estou ao computador a ouvir música e a escrever estas palavras sinto-me melhor.
Porque não é sempre tudo fácil e simples como agora?

9 de junho de 2016

Oficial

Agora é oficial, um senhor doutor diagnosticou-me como sendo bi-polar tipo II. O título não me assusta, assusta-me sim a constante queda. Assusta-me a contínua desligação de tudo o afastamento de tudo e todos. A medicação é cada vez mais e mais forte. Entrei em campos de medicação que achava absurdos e impossíveis. Chegar ao fim de um dia é uma conquista para a qual não tenho palavras. Não me desmancho em choro no trabalho porque não posso, sei que não posso e por isso faço um esforço sobre humano para que tal não aconteça. No trabalho a prestação é sempre aquém.
Re-lembro as palavras repetidas do médico:" numa situação normal vocês já estava reformado por incapacidade, só a sua resiliência o mantêm ainda capaz e isso é uma conquista enorme". 41 anos, já estaria reformado....41 anos...parece uma anedota...não desejo isto a ninguém. Ninguém merece. Ninguém merece um cancro e doenças que tais, e esta é outra das que tais, que vai consumindo, que nos mata em silêncio, que nos consome. Tantas e tantas vezes que me apetece é estar em lado nenhum.
Nem estes dias luminosos me animam, nem o meu filho de quem tanto gosto me anima. 
Estou sem força. Não tenho força, mas ainda por aqui estou, por razões que desconheço.

Estou longe de tudo e todos. Quero sorrir e não consigo. Isto não é viver certamente. E a maior loucura é que no meio de tudo isto ainda tento montar um pequeno negócio que me permita ganhar um dinheiro extra. Não tem sido fácil mas tem sido um desafio bom, mas muito difícil.  Sinto-me cansado, estou cansado. Já chega.


10 de março de 2016

3 de março de 2016

Voltam também as fotos de jantares e assim...

 legumes salteados com quinoa e semente papoila e atum fresco grelhado

Esta cativa que me tem cativo





Tu e eu. Cartas de um frágil castelo edificado a partir do nosso primeiro olhar, do primeiro toque, da primeira penetração, da primeira ejaculação.