3 semanas. Passam hoje 3 semanas que aqui cheguei. Tanta coisa já se passou, já verti umas lágrimas quando a vontade foi de chorar muito, mesmo muito.
Aqui, sozinho, todos os meus defeitos e qualidades são amplificados e noto-os à flor da pele. A dificuldade de concentração acima de tudo, a ansiedade, mas a força de vontade, a resiliência por outro.
Desde há muitos dias que aqui queria mesmo escrever. Achei, nesta altura, que fazia sentido, mas fui deixando passar os dias. Dias que não são muito diferentes dos que vivia em Portugal, quer dizer, nos acontecimentos, no que realizo em acto. casa trabalho, trabalho casa, sendo que, no caso, aqui, não é a minha casa nem o meu quarto nem nada do que é meu, é tudo emprestado por um aluguer.
Falo de Londres, Inglaterra onde cheguei dia 27 de Janeiro.
O trabalho tem sido muito duro, muito violento física e psicologicamente. Com duas semanas de trabalho, num fim de uma noite, o chefe, a sorrir, pergunta-me como correu o serviço e o que estava a achar...o que foi fazer...foi difícil falar no meio de tanta comoção, de tantos soluços, mas lá falei. O chefe, boa pessoa sem dúvida. Abraçou-me e foi carinhoso. Foi honesto dizendo que teria de puxar por mim e que nada tem contra mim.
Gosto do tipo de cozinha que se faz onde estou a trabalhar: honesta, bons ingredientes, bem preparados, excelentes recortes de cuidado com pequenos elementos que fazem a diferença, destaco o creme de brandy que eu próprio preparo todos os dias e que acompanha uma sopa de lagosta, qualquer de extraordinário.
Mas é duro fisicamente, 4 dias a trabalhar das 8.30 até as 23 num ritmo alto a que já não estava habituado.
E Londres é outro mundo É uma cidade bonita, não mais bonita que Lisboa ou Porto, na minha opinião, mas os padrões de riqueza são outros, o tipo de vida é outro. Há aqui de tudo, tudo o que não imaginamos existir descobrimos aqui que existe. Tudo o que é novidade e extraordinário em Lisboa/Porto é banal por aqui. Não há dia que não me depare com mais uma grande marca, um grande nome, um grande espaço de compras com marcas de renome. Não há dia que não oiça o roncar de um lamborghini ou ferrari ou bentley ou Rolls Royce e no fundo, naquele que é o meu dia a dia, não noto grande diferença. As pessoas que se levantam cedo e entompem o metro. As pessoas ao telemóvel a fazer sabe deus o quê. As pessoas ao telemóvel de head-phones. No fim do dia as pessoas cansadas, a dormirem, adormecidas no metro a contrastar com o buliço da noite. Eles e elas, das mais diversas etnias e idades e estratos sociais engalanados muitas das vezes, como se fossem sei lá para onde...para a noite dos Óscares...Picadilly Circus cheia de gente como se se tratasse da hora de ponta, soho cheia de gente, como se se tratasse da hora de ponta, como se algum incidente tivesse ocorrido e dali ninguém conseguisse sair.
Eu caminho só pelo meio de todas estas palavras que há tanto andava para desabafar, caminho só entre a linha do tube de picadilly e jubilee, sem o cheiro da nossa lisboa nem do nosso tejo. Aquilo que me era estranho tornou-se para já normal e o dia a dia até sabe deus quando. Vamos a ver se este sacrifício vale a pena. O sacrifício de uma solidão quase auto-imposta em jeito de prisão e punição, este sacrifício do silêncio. este sacrifício de te deixado tudo, absolutamente tudo para trás. O amor de tudo para trás. O Amor por tudo e todos para trás numa outra tentativa de andar com mais força para a frente.